Cartas à Manu: Sobre a libertação de modelos prontos

Por Manoel Fernandes

Querida Manu,

Sua primeira imagem em Dublin

Você colocou os pés no velho mundo e aquela primeira imagem em terras distantes contrastou o céu escuro com a nossa alegria. Uma jornada e tanto: toda a preparação, a espera e, na reta final, os últimos quinze dias antes do embarque, aqueles encontros de amigos, um almoço fraterno, o café da manhã no dia do embarque, o trajeto de van até o aeroporto de Navegantes. As inevitáveis emoções e o choro antes de você entrar na sala de embarque. Nosso grito “é tetra!” ecoou em todo o saguão do NVT antes de vermos você e Brunão aparecerem na pista para o embarque; uma aventura em que o êxito não nos surpreendeu.

O que me pareceu novo foi o sentimento e novas emoções quando vi você na primeira imagem, na saída do Aeroporto de Dublin: céu nublado, sorriso brilhante. Missão cumprida! A porta do voo se abriu e o mundo tornou-se seu. A novidade foi a alegria que tomou o meu coração. Nada de tristeza, nada de desespero; puro êxtase. De alguma forma, ver seu coração e sentimentos agora desbravando novas terras era também o nosso. Na terça, mais surpresas e alegrias quando cheguei no escritório sem você fisicamente. Há muito tempo que não trabalhava com tanta vontade, não atendia nossos clientes e amigos com tanta determinação, não escrevia com grande convicção. Você foi para o mundo e levou uma parte da gente. Estamos com você, você sabe. E você está com a gente aqui também. Acho mesmo que isso é a força do amor.

Manu, fiquei feliz que você tenha gostado do Calhamaço de Viagem. Lembro que um tempo atrás, antes do embarque, você comentou comigo que nunca tinha visto eu tão feliz como esse ano de 2018. Acho que você usou: “Esse ano você se divertiu muito mais que os anteriores”. Acho que foi isso mesmo. Teve algum tipo de libertação esse período. De atavismos, de sentimos menores, de culpas, de medos. Valorizou muito eu pensar em você e sua irmã Rafa e ter a certeza de que a melhor forma de oferecer conhecimento e vivências é mostrar o que eu sou de fato. Nossos filhos não procuram somente os exemplos, mas autenticidade. Com isso, eles sabem que não são enganados pelas aparências, por algo que no fundo não somos. Não enceno o papel de pai. Mas vivo de fato o que sou, com méritos e deméritos, com acertos e erros, muitos erros. Isso, de certa forma, nos coloca ombro a ombro. Talvez o nome disso seja cumplicidade. Sim, esse ano fui mais feliz.

Calhamaço de viagem foi uma forma de libertação das amarras do modelo, em que falei de coisas simples, sentimentos simples, mas que pode ser lido hoje como daqui a 100 anos. Rodrigo Gurgel, crítico literário, em um vídeo recente, falou sobre a importância de mantermos diários, como exercício da escrita; que antes de qualquer odisseia que queremos escrever, devemos olhar ao nosso redor e enxergar aquilo que temos de especial, de peculiar, que mereça ser contato. Procurei fazer isso.

Essas cartas que vou tentar escrever a cada quinze dias também são uma forma de nos manter vivos ao falar de coisas relevantes, principalmente nesses tempos estranhos em que os saberes são colocados de lado. Tempos estranhos em que a superfície vale mais que a profundidade. E os memes valem mais que os livros; e os fakes valem mais que as cartas sinceras. Essas cartas terão esse sabor de mostrar que apesar de tudo nos mantemos unidos, a estudar, a ler, a conhecer e nos aprofundar na história. Sim, resistiremos!

 

Manoel Fernandes, 55 anos, é jornalista, editor, palestrante e curador de conteúdo para empresas e organizações. Foi criador de uma das mais tradicionais revistas alternativas da internet no Brasil, a NovaE. Calhamaço de viagem é seu segundo livro. Escreveu também Entrevista de atriz, ainda não publicado.

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