Ano novo, um recomeço?

Manu Fernandes

Sempre gostei dessa energia, desse sentimento de final de ano. Sempre gostei dessa força, dessa vontade que o final do ano nos traz. Essa garra de que o próximo ano você vai conseguir riscar mais itens da lista de metas do que no ano que passou, arrisco a dizer que é uma certa esperança que nos move. E mais, arrisco a dizer que essa esperança é o que nos faz não desistir.

Junto com a esperança, também vem uma certa cobrança. Uma cobrança de que não foi feito o suficiente, que não foi feito o necessário, que tinham coisas que deveríamos ter feito diferentes e outras que deixamos a desejar.

Mas pera aí, calma.

O ser humano está em eterna evolução, nós sempre podemos ir mais, né? Eu tenho a sensação que nunca é demais, que sempre podemos fazer algo melhor. E pra ser sincera com vocês, eu me cobro demais! Às vezes até além da conta. Então, eu gosto muito desse final de ano.

Gosto porque me renova.

Gosto porque fico reflexiva sobre os 365 dias passados. E devo dizer, nenhum ano acaba como imaginei que acabaria lá quando idealizei em janeiro.

E com isso, deixo com vocês um poema de Fernando Pessoa chamado Tabacaria, que sempre me vem a cabeça em tempos assim.

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo.
que ninguém sabe quem é
( E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes
e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.

Sendo assim, feliz ano novo! Que 2018 traga realizações, força para correr atrás dos seus sonhos e momentos!

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